Dia 13: Um novo ator pra companhia

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Na cidade de Aparecida, a do famoso Santuário Nacional, onde descansa a padroeira do Brasil, fomos descarregar nosso cenário numa quarta-feira quente, para dar início a mais um dia de apresentação.

Da Dutra se vê o suntuoso santuário, opulento, entre as dezenas de hotéis, restaurantes, outdoors. A cidade toda segue este tom, quase desesperado, de quem vive do turismo. Nota-se que aquele sentimento de pertencimento, que tanto agrega a uma comunidade, cede ao desejo do mercado, deixando nos atores a sensação de um lugar até bastante hostil.

Na praça, moradores de rua foram os primeiros a nos receber. Festivos à nossa chegada, como costuma acontecer. Era ali a casa deles, e poucas pessoas atravessavam pela praça para se locomover pelo comércio central. Montamos nosso cenário, e a hora da apresentação, algumas escolas chegaram, o que foi muito bem-vindo pois era claro que haveria pouco público passante por ali.

Durante a apresentação, um dos moradores de rua tomou conta da roda. Entrou, dançou, até atuou. O Ricardo Ikier, o Damião, foi levando a situação como pode, improvisando e brincando com o novo companheiro de cena. Estávamos, pois, na casa dele e não podíamos ignorá-lo. Os estudantes se divertiam e, embora a trancos, a história ia seguindo. No entanto, tendo ali muitas escolas, haviam também policiais no local, os quais num dado momento retiraram o morador da roda e o fizeram sentar perto deles. Rolou aquela tensão entre os atores. O Damião foi tentar aliviar a situação, abandonou os outros atores que foram seguindo com a peça, e chegou perto dos policiais, sentou com o moço e ficou trocando ideia, a maneira de dizer que estava tudo bem.

Foi, apresentamos, os alunos adoraram, os professores nos cumprimentaram, voltaram todos a seus ônibus e seguiram de volta às escolas. Depois vieram nos cumprimentar os moradores de rua. Aquele que participou era só alegria. A felicidade imensa de ter participado. Um pouco depois chegou uma mulher, também moradora de rua, emocionada. Alguém notou a postura de bailarina. Contou algo que não entendi bem, mas do que resumo que ela também já tinha sido artista. Agradeceu e foi embora.

A gente apresenta em parques, em escolas, em praças de todo tipo. Mas nessas praças assim, centrais, é muito comum conhecermos seus moradores, os donos da casa. O grupo chega muitas horas antes, e vai-se algumas horas depois da apresentação. Ficamos assim umas 6, 7 horas numa praça. Já perdi a conta de quantas pessoas conhecemos em situação de rua, que acho é o termo mais aceito pra se falar daqueles cujos lares não são uma propriedade privada, como a minha ou a sua. E é sempre uma coisa muito louca, pois eles se aproximam muito facilmente de nós, com vontade de conversar, uns mais doidinhos, outros também artistas, uns observadores, outros tantos de tantos jeitos quanto é possível caber nesta nossa louca sociedade. Se é que cabem. Este é um público comum nas nossas andanças. Nem sempre eles ficam pra ver a peça. Muitos preferem os momentos em que ficam a sós conosco, quando conversamos enquanto montamos o cenário, ou nos maquiamos, ou afinados um instrumento. Nem sei dizer o quanto estes momentos são importantes pra mim. Faz parte do guarnecer do teatro de rua. Faz com que eu entenda de novo porque a rua.

Lara Prado

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Fotos: MaFê Moreira

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