Dias 8 e 11: Pindamonhangabas

6Na segunda cidade que nos hospedou durante essas presepadas no Vale do Paraíba, duas apresentações, uma no Centro comunitário Araretama e a outra no Bosque da Princesa. Dois lugares em pontos distantes do mapa de Pinda que não há como evitar traçar uma distinção que nos foi apresentada e organizada pela secretaria de cultura da cidade.

A Damião e Cia. de Teatro é um grupo de teatro de rua. Acreditamos que a experienciação poética e coletiva em local público constitui um importante agente de transformação sociocultural, ao criar rupturas no cotidiano – respiros poéticos em meio ao caos dos problemas diários. Assim, procuramos nos apresentar em diferentes lugares das cidades que percorremos, abrindo possibilidades de levar nossos espetáculos para um público distinto, do centro e da periferia, de novos e velhos, que possuem acesso a eventos culturais e também a população carente desses eventos. Esse projeto foi escrito e pensado para assim ser desenvolvido, interligando uma região que possui inúmeros grupos de Jongo, Maracatu, Folia de reis, Congadas e tantas outras manifestações vinculadas à cutura popular brasileira, mas que não é um corredor cultural de grupos de dança, teatro, música que são contemplados com editais de cultura. Devido a esse quadro as apresentações foram sendo agendadas pra ocorrer em pontos distintos das cidades, em escolas da periferia e gerando também o contato com esses grupos da região.

1Já nos primeiros dias de Vale fomos “alertados” sobre a apresentação de Pindamonhangaba, que poderia ser “tensa” já que estava em uma região violenta da cidade, onde existem muitos presídios, e pra ficarmos ligados. Frases que para mim se juntam em uma série de ecos de preconceito e exclusão. A própria pessoa que nos direcionou esses “conselhos” no dia da apresentação no Centro Comunitário Araretama chegando ao local me disse: “Taí uma região que eu não conhecia. Nunca tinha vindo ao bairro” reforçando uma visão apressada e carregada de interpretações rasas sobre o bairro. Pena que essa idéia do lugar onde nos apresentamos tenha atingido também quem planejou a apresentação no local. “o pessoal do bairro não tá acostumado. Não vamos esperar muita gente.” E assim montamos nosso cenário e esperamos o horário marcado pra começarmos. Bem perto do horário percebemos que o publico seria realmente escasso (talvez nenhum). Alguns de nossos atores decidiram subir em nossa carreta, maquiados e com os instrumentos, fazendo um cortejo, chamando as pessoas que estavam pelo bairro. Em alguns minutos dessa ação voltaram sozinhos. Continuamos tocando na esquina, quando algumas pessoas foram chegando devagar, alguns meninos do bairro apareceram com suas bicicletas e fizemos a apresentação para um público arredio e que pelo comportamento nos mostrou que não tinham aquele costume de assistir apresentações de teatro, mas que de alguma forma gostaram daquela experiência. Nos cumprimentaram no final ressaltando “bom trabalho. Continuem fazendo ele”, me falou um dos que saiam meio atordoado ainda pela presepada que tinha visto.

Já a apresentação do “Bosque da Princesa” foi bem diferente. Apesar da chuva que já se apresentava horas antes da 2apresentação montamos o espetáculo abrigados pelo coreto do bosque, um lugar muito bonito e arborizado junto ao rio Paraíba do sul que passa pelo local. Pouco antes de bater duas horas (uma hora antes do horário marcado para apresentação) a chuva cessou e armamos a apresentação no lugar onde mais cedo já havia se apresentado um grupo que fez cirandas com as crianças e adultos do lugar. Fomos informados que o público dali chega em cima da hora das apresentações, que são constantes no bosque. E assim foi. Quase na hora de começarmos surgiu um grande grupo de pessoas de diferentes idades e que demostravam que conheciam o lugar, e tudo o que envolve essas apresentações. Já escolheram o lugar pra se sentar e esperaram o início da peça. Foi uma ótima apresentação. O improviso que tem um papel fundamental na companhia se deu com maestria e rolou solto e certeiro com o público generoso, atento e que se fez presente em grande número.

4Não posso deixar passar essa diferença nas apresentações e locais que a meu ver não foi nada casual. O prévio conhecimento do horário do espetáculo, de toda aura que envolve uma peça, o lugar preparado para receber tanto a companhia como o público, as árvores que nos deram uma sombra excelente para trabalhar, difere em muito do local anterior um galpão, quente, distante e sem nenhum tratamento para tal tipo de experiência. O publico que ficou sabendo por nós em cima da hora de que ali iria ocorrer uma peça de teatro, o desconforto até nos corpos que nos assistiam gritava que era uma situação nova que os moradores do Araretama presenciaram. Apesar de não ter sido uma apresentação tão boa como a do bosque, ocorreu bem, sim obrigado. Agora os esforços para que essa representação ocorresse em ambos os lugares me parecem bem distintas. Não pelos atores que se doaram de forma completa, mas talvez (quem sabe?) pela idéia que sobrevoa o bairro periférico e que com certeza não recebe semanalmente uma carga de apresentações nem de perto igualitária ao bosque (no dia em que estivemos ali três grupos passaram pelo solo onde a princesa Isabel já caminhou). Será que a divulgação foi feita de forma igualitária? Com certeza não. Os esforços do grupo foram. Mas o preconcebido de que o bairro não comparece aos eventos, não está acostumado ao teatro e outras tantas visões que só fortalece a distância geográfica e social dos dois pontos, parece ter assombrado quem organizou localmente a produção em Pinda. Me orgulho de pertencer a um grupo que continua trabalhando para minimizar essa diferença, levando seu trabalho para locais diversos, pessoas diferentes mas, que ainda nesse ano de 2016 ainda tem que romper barreiras invisíveis e tão simbólicas que separam a periferia do Bosque da Princesa. Que caiam os muros.

5

Ricardo Ikier

Fotos: MaFê Moreira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *