Dias 20 e 21: Sobre barulhos, poeira e lustre – a oficina de Lorena

DSC00446A oficina de Lorena aconteceu na Casa da Cultura, situada em uma simpática rua de paralelepípedos que leva o nome de Viscondessa de Castro Lima, n° 10. O lugar, um belíssimo casarão construído no século XIX, muito bem preservado, abriga a Casa de Cultura de Lorena desde 1962. A título de curiosidade, já pernoitaram nesse ambiente Dom Pedro II, Princesa Isabel e Conde D’Eu (ooooh!). É o ponto de maior influência cultural da cidade, responsável por movimentar, intensificar e proliferar todo o tipo de manifestação cultural, desde aulas de teatro, violão erudito, até exposições e performances.

O primeiro dia da oficina foi uma quarta-feira calorosa e abafada. Chegamos à Casa da Cultura e fomos direcionados para uma sala no primeiro andar, um espaço bastante amplo, perfeito para a condução de nossa oficina. O condutor dessa vez foi o Ricardo, que soube melhor do que ninguém motivar as pessoas a ultrapassarem suas barreiras e botar o pessoal pra mexer e brincar. Encaminhávamo-nos para um pouco mais de trinta minutos de oficina quando um senhor bateu na porta e de uma forma nada educada fingiu que estava propondo uma troca de sala, mas na verdade não nos deu opção e não quis ouvir as nossas necessidades, pois estávamos atrapalhando a aula de violão ao lado. “Olha só aqui tá bom, não tá? Fica aqui mesmo que vai ser melhor.”, nos enxotando para outra sala, em outro canto, bem menor do que a primeira, cheia de cadeiras, com uma indiferença do tamanho de um bonde. Fizemos uma força tarefa e não levamos mais do que cinco minutos para liberar a sala e preencher o corredor do andar superior da Casa da Cultura com elas, para infelicidade do senhor que nos havia relocado.

Logo que voltamos o trabalho na nova sala, o Ricardo puxou uma conversa muito importante que sempre fez parte de nosso cotidiano: há um imenso pouco caso com a cultura popular. Estamos sempre incomodando alguém, estamos sempre fazendo barulho demais. Quantas e quantas vezes, enquanto ensaiávamos em praças ou lugares públicos de Campinas, quando ainda não tínhamos um lugar fixo para ensaiar, a vizinhança pediu para que nós diminuíssemos o barulho, mudássemos de lugar ou parássemos a qualquer custo de importunar a pacata tarde que eles tanto mereciam – estávamos, de certo, atrapalhando a reprise daquela famosa novela da década de 90 no vale a pena ver de novo e o tranquilo chá com bolachas, servido em xícaras portuguesas da era colonial. Nós sempre cedemos. Sempre entendemos o incômodo. Poucos foram aqueles que tentaram nos entender.

Voltamos aos trupés. Foi quando estávamos no meio do aprendizado do maguio, o mergulhão do Cavalo Marinho, novamente bateram à porta. Dessa vez era o moço da recepção: “Será que vocês podem trocar de sala? Lá embaixo o lustre está balançando e está caindo muita poeira em cima da mesa.” Mais uma vez interrompidos. Mais uma vez incomodando. Preferimos mudar a condução do trabalho, do que arrumar a sala que havíamos liberado e possivelmente liberar a nova sala e arrumá-la depois. Fomos para o improviso de versos e com muita criatividade fizemos piada da nossa situação.

No dia seguinte, uma sala no térreo estava a nossa espera, ainda um pouco menor do que a das cadeiras, mas agora não tinha erro. Retomamos o maguio, fizemos mais improviso de versos, trabalhamos com os bastões e as máscaras da Folia de Reis e o segundo dia da oficina foi tão tranquilo e divertido que deu até uma vontade de incomodar um pouquinho.

Rafael

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Fotos: André Sun

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