Dia 22: A primeira vez eles nunca esquecem

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Sexta-feira, 11 de março de 2016, era o dia designado para nossa apresentação do Damião na menor das onze cidades escaladas para nosso projeto. Com uma área territorial de 51km² – uma boa ideia de área –  e uma população com pouco menos de 5 mil habitantes, segundo a tia Wikipedia, ficamos levemente assustados ao chegarmos na Praça João Paulo II – saímos da Dutra e entramos em Canas (tururuts).

O susto aconteceu pela junção de alguns fatores: a praça, que apesar de sediar a Câmara Municipal da cidade, não estava localizada em uma região central como esperávamos, era rodeada por residências, um estabelecimentos fechado e um trator fazendo manutenção na praça – soubemos mais tarde que algumas árvores caíram por conta de um temporal de pouco tempo – ou seja, estávamos certos de que não teríamos muito público nenhum; o outro ponto importante para nós era o tempo fechado e a grande possibilidade de cancelar o espetáculo antes ou durante o decorrer da peça – o fantasma da chuva andou nos assombrando em boa parte das apresentações.

Enquanto começamos a montagem de nosso espetáculo, tirando os instrumentos do carro e o cenário da carreta, logo vieram pessoas da prefeitura nos receber e dizer que alguns alunos de uma escola próxima viriam para o espetáculo – o que trouxe alegria e ânimo para nossa montagem. Conforme o horário da apresentação foi se aproximando, as nuvens carregadas foram se afastando e uma bela tarde de Sol começava a tingir nossas caras maquiadas.

A escola chegou minutos antes do início do espetáculo e logo um professor nos interpelou: “Para muitos deles será a primeira vez assistindo um teatro”. Um misto de orgulho e tristeza inundou meu ser naquele momento. Orgulho porque sabia, prepotências à parte, que aquelas crianças teriam uma ótima primeira experiência teatral, com uma peça de qualidade, e que não subestimaríamos a inteligência delas tampouco a capacidade de entendimento da narrativa; a tristeza também veio porque o professor só me confirmou a carência e a urgente necessidade de investimentos culturais em cidades de pequeno porte.

As crianças dominaram as cadeiras cedidas pela prefeitura e também os espaços das lonas que esticamos para proporcionar um pouco mais de conforto para elas. Até havia alguns adultos, em pé, atrás das cadeiras, e outros ainda mais afastados, provavelmente moradores das casas da vizinhança, bem mais próximos da rua do que de nós. Ainda que distantes, não gostamos de deixar ninguém de fora, nos esforçamos um pouco mais para que o espetáculo chegasse também para aqueles que não se sentiram a vontade para se aproximar, mas o foco mesmo eram aqueles pequenos e atentos olhinhos que estavam ali totalmente receptivos para nós. Comportaram-se muito bem durante o espetáculo, acompanharam a história, interagiram espontaneamente conosco nos momentos de jogo com a plateia, riram, surpreenderam-se, assustaram-se… uma grande camada de sentimentos que só um teatro bem apresentado é capaz de proporcionar e despertar. E que bom que estivemos ali, naquela fatídica sexta-feira para muitas daquelas crianças, que, certamente, lembrar-se-ão de nós para sempre.

Rafael

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Fotos: MaFê Moreira

Dias 20 e 21: Sobre barulhos, poeira e lustre – a oficina de Lorena

DSC00446A oficina de Lorena aconteceu na Casa da Cultura, situada em uma simpática rua de paralelepípedos que leva o nome de Viscondessa de Castro Lima, n° 10. O lugar, um belíssimo casarão construído no século XIX, muito bem preservado, abriga a Casa de Cultura de Lorena desde 1962. A título de curiosidade, já pernoitaram nesse ambiente Dom Pedro II, Princesa Isabel e Conde D’Eu (ooooh!). É o ponto de maior influência cultural da cidade, responsável por movimentar, intensificar e proliferar todo o tipo de manifestação cultural, desde aulas de teatro, violão erudito, até exposições e performances.

O primeiro dia da oficina foi uma quarta-feira calorosa e abafada. Chegamos à Casa da Cultura e fomos direcionados para uma sala no primeiro andar, um espaço bastante amplo, perfeito para a condução de nossa oficina. O condutor dessa vez foi o Ricardo, que soube melhor do que ninguém motivar as pessoas a ultrapassarem suas barreiras e botar o pessoal pra mexer e brincar. Encaminhávamo-nos para um pouco mais de trinta minutos de oficina quando um senhor bateu na porta e de uma forma nada educada fingiu que estava propondo uma troca de sala, mas na verdade não nos deu opção e não quis ouvir as nossas necessidades, pois estávamos atrapalhando a aula de violão ao lado. “Olha só aqui tá bom, não tá? Fica aqui mesmo que vai ser melhor.”, nos enxotando para outra sala, em outro canto, bem menor do que a primeira, cheia de cadeiras, com uma indiferença do tamanho de um bonde. Fizemos uma força tarefa e não levamos mais do que cinco minutos para liberar a sala e preencher o corredor do andar superior da Casa da Cultura com elas, para infelicidade do senhor que nos havia relocado.

Logo que voltamos o trabalho na nova sala, o Ricardo puxou uma conversa muito importante que sempre fez parte de nosso cotidiano: há um imenso pouco caso com a cultura popular. Estamos sempre incomodando alguém, estamos sempre fazendo barulho demais. Quantas e quantas vezes, enquanto ensaiávamos em praças ou lugares públicos de Campinas, quando ainda não tínhamos um lugar fixo para ensaiar, a vizinhança pediu para que nós diminuíssemos o barulho, mudássemos de lugar ou parássemos a qualquer custo de importunar a pacata tarde que eles tanto mereciam – estávamos, de certo, atrapalhando a reprise daquela famosa novela da década de 90 no vale a pena ver de novo e o tranquilo chá com bolachas, servido em xícaras portuguesas da era colonial. Nós sempre cedemos. Sempre entendemos o incômodo. Poucos foram aqueles que tentaram nos entender.

Voltamos aos trupés. Foi quando estávamos no meio do aprendizado do maguio, o mergulhão do Cavalo Marinho, novamente bateram à porta. Dessa vez era o moço da recepção: “Será que vocês podem trocar de sala? Lá embaixo o lustre está balançando e está caindo muita poeira em cima da mesa.” Mais uma vez interrompidos. Mais uma vez incomodando. Preferimos mudar a condução do trabalho, do que arrumar a sala que havíamos liberado e possivelmente liberar a nova sala e arrumá-la depois. Fomos para o improviso de versos e com muita criatividade fizemos piada da nossa situação.

No dia seguinte, uma sala no térreo estava a nossa espera, ainda um pouco menor do que a das cadeiras, mas agora não tinha erro. Retomamos o maguio, fizemos mais improviso de versos, trabalhamos com os bastões e as máscaras da Folia de Reis e o segundo dia da oficina foi tão tranquilo e divertido que deu até uma vontade de incomodar um pouquinho.

Rafael

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Fotos: André Sun

Dias 9 e 10: Ripa na chulipa e Pinda, a oficina.

 

A oficina de Pindamonhangaba começou com uma confusão danada e com algumas falhas de comunicação entre nós e a secretaria de cultura de Pinda. Os dias e horários que passamos para eles eram os seguintes: 26/02, sexta, das 18h30 às 22h30 e 27/02, sábado, das 14h às 18h – com esses dados, a secretaria estava responsável por disponibilizar um local para a realização da oficina.

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Eduardo, responsável da cultura que estava em contato conosco, poucos dias antes, nos pediu por email para que alterássemos o horário da sexta-feira para às 14h, como no sábado. Ligamos para a secretaria de Pinda no dia seguinte, perguntando se realmente não seria possível manter o horário da noite. O grande problema foi que o pessoal da secretaria não respondeu, dizendo que verificariam a possibilidade e nos comunicariam quando soubessem. Não nos comunicaram. Alteramos o horário da sexta em nossa inscrição virtual e mandamos email para as pessoas que haviam se inscrito no horário anterior, salientando a alteração. Chegou o dia da oficina e lá fomos nós, a tarde, para a nossa oficina no Studio Connatus de Dança. Demos com os burros n’água – a escola estava fechada.

Outro ponto importante de salientar, que nos pareceu no mínimo estranho, foi o fato de a secretaria de cultura ter aberto uma inscrição paralela à nossa. Ao invés de divulgar nosso link de inscrição, eles próprios criaram uma forma para as pessoas se inscreverem – o que contribuiu ainda mais para nossa desorganização.

Ao depararmo-nos com a escola fechada e darmos com a cara no muro, ligamos para o Eduardo. Ele entrou em contato com os responsáveis da escola e tão logo chegaram para nos receber. “Esperávamos vocês à noite”, disseram. Descobrimos que alguns alunos da escola e outras pessoas inscritas pelo link da secretaria sabiam do horário noturno. Nesse meio tempo, duas pessoas inscritas pelo nosso site chegaram. Depois do muro, nossa cara, enfim, chegou ao chão. Explicamos para eles o que havia acontecido, pedimos desculpas por toda a confusão, perguntamos se eles se importariam de fazer a oficina com os outros na parte da noite e, para nosso alívio, acabaram topando numa boa.

Apesar dos perrengues, a oficina ocorreu muito bem, com condução maestral do nosso querido Crô. É sempre gratificante perceber o quão aflitas as pessoas chegam e como, aos poucos, conseguimos mudar a chavinha da dúvida, receio, medo, do “não consigo” para a chavinha da brincadeira, do divertir-se e do estado de jogo em alerta – elementos fundamentais e de extrema importância de algumas manifestações populares.

Saímos com o espírito leve e com a certeza de um trabalho muito bem realizado, unicamente pela troca genuína entre todos os presentes, pelo maguio do Cavalo Marinho, pelo improviso de versos e pela utilização das máscaras e bastões da Folia de Reis.

Obrigado a todos pela disposição, por desafiar-se e pela confiança!

Rafael D’Alessandro

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Fotos: André Sun