Dias 25 e 26: Da necessidade de continuar

DSC01714

Cruzeiro tem um Museu, que Deus Meu. Árvores centenárias, daquelas que precisam de 10 pessoas para abraçar. Que árvore. Imagina só a raiz? Imagina como encorpa a terra com seus braços subterrâneos. Como é soberba a sua cúpula, que arquitetura nenhuma já imitou. Como até o céu se tomba, e só aparece em frestas, pequenas. Que árvore. Que bonito, o museu. E como era de se esperar, tem infeliz história. Foi de Major, foram escravos quem plantaram as árvores, há até mesmos dois enterrados ali, na propriedade. Demos aula na antiga senzala. Dava pra perceber a recente construção das janelas. Era um lugar onde viviam pessoas, e não havia janela. Um lugar onde viviam pessoas cujas mãos trouxeram a vida uma potência infinita, e não havia sequer uma janela. E aí você contrapõe a árvore e o homem, e pensa, que erro, deus meu. Mas aí você também se prepara para uma oficina, e aparecem três jovens que vieram de uma cidade há 40km pra aprender algo com você. E há de se superar aquilo, pra no mínimo ver aquele espaço conhecer outra história, de vida e não de dor.

Lara Prado

DSC01696 DSC01698 DSC01766 DSC01844 DSC01857

Fotos: André Sun

Dia 25: Pequenos demônios de Dionísio

Lá em Roseira, um praça tão simpática, como o próprio nome da cidade. Não havia igreja na praça, apenas uma ali no próprio quarteirão, pequena, sem graça. Talvez porque Aparecida esteja tão perto que não compense gastar tijolo em uma igreja grande para a simpática praça de Roseira. Os fiéis tem do lado um templo enorme, não há porque. Suponho, apenas. Mas dito isso, que notei com espanto, porque nunca vi cidade pequena com praça sem igreja, obsessão de assunto que não me deixa continuar, dito isso, passo adiante, para a apresentação. Armamos a barraca debaixo de uma grande sombra, gostosa, de uma árvore bonita, que serviu de casa para a Morte ficar. É tão bonito quando isso dá certo. Quando: 1º, temos uma árvore de bom tamanho próxima ao local de apresentação; 2º, a árvore é passível de ser escalada pelos atores; 3º, a árvore está posicionada em relação ao sol de forma que a sombra fique de um lado e ela de outro, ou seja, quando ela fica ao fundo da representação e não no meio da possível plateia; 4º, percebemos tudo isso e enfeitamos a árvore a tempo da representação. Aí você me entende porque é tão bonito quando isso dá certo, não é? Basta ver o número de variáveis nessa operação.

Pra apresentação vieram a pé alunos da escola próxima. A pé, primeiro da fila de mãozinha dada com o professor. E diz que isso também não é lindo? Imaginem vocês o número de variáveis nesta operação! Sentaram comportados e riram comportados dos primeiros passos do Damião. Só com o tempo é que começaram a se soltar, e então se divertiram de verdade, como os pequenos demônios de Dionísio que são. Também nesse dia tivemos a presença do bêbado local, que atendeu a um telefone que lhe estendeu o Diabo. Mas estava ocupado, ele respondeu.

Fim da apresentação, voltam pras escolas os recém transformados anarquistas, de novo feitos anjinhos, primeiro da fila de mãozinha dada com o professor. E a gente deixa a pequena e simpática cidade, com a árvore que acertou a todas as demandas, e corre pra Cruzeiro, onde o dia haveria de continuar em uma oficina. De calma, só a sensação do ar em Roseira, a gente pra variar estava trabalhando a mil. E lá fomos nós, correr para continuar o dia.

Lara Prado

DSC01660 DSC01644 DSC01659 DSC01647 DSC01663 DSC01662

Fotos: MaFê Moreira

Dias 16 e 18: Crianças, crushs e coelhos

Em Guaratinguetá,
DSC09514 duas apresentações. Da primeira, no Parque Ecológico, tão lindo, quero narrar dois momentos. O primeiro é branco e peludo, pois se dá na forma de um coelho que dormiu na lama bem próxima ao palco. O palco, digo já, também bonito. Quase grego, quase lindo. De fundo, um lago, avisam por lá, profundo. Seu centro, uma arena elevada, seguida por arquibancadas, margeadas por árvores, cobertas pelo céu limpo. Tudo lindo. Havia porém, envolta do palco, muita lama, da chuva precedente, e da lama vem o primeiro momento, branco e peludo, e também o segundo, quando Jesus Cristo pregou uma peça no Diabo. No caso, Rodrigo Nasser naquela que vós fala. A um momento da peça, quando o Diabo corre atrás do menino Jesus, o ator em questão atraiu-me para uma poça de lDSC09598ama, e eu cai como um patinho (também haviam patos). Bom, quase cai, de cara no chão, depois de sapatear por segundos fatídicos e tornar a me equilibrar. Narrados pois os dois momentos, simples e simpáticos porque também foi assim a apresentação, sem mais delongas, ainda que me delongando um pouquinho, vou relembrar apenas que a Bruna Recchia se exasperou por conta de um ganso. O animal assassino que recebeu pão na boca da mão de um menino. E pra terminar, uma fofoca. Alguém saiu de lá com um crush. Ops, falei.

DSC09910

A segunda apresentação foi em uma escola. Tinha salas abertas, não soubemos se por proposta ou falta de opção, mas que davam um ar mais alegre ao lugar que tinha uma infraestrutura melhor do que as escolas que conhecemos até então. Uma surpresa foi notar na eDSC09999ntrada um cartaz que proibia a entrada de pessoas com decotes, roupas cavadas ou acima do joelho. Pensamos: escola carola. Vamos segurar no palavão ou tacar o terror? Cada um fez sua escolha individual e foi bem divertida a apresentação. A Morte perdeu o controle dos mais novos, que, colocados no mezanino,acharam jeito de ficar bem próximos dela e não mais pararam de sacaneá-la. Quando o Ardilino passava, todos se levantavam e corriam, e era um deus nos acuda pra depois achar o seu lugar. Ao final, muitos autógrafos nos postais, vários abraços e um conselho da professora, que embora gostasse da peça, achava que devíamos falar num novo espetáculo sobre o que as crianças podem ou não podem fazer. Chocante, não?

DSC09972

Fotos: MaFê Moreira
Lara Prado

Dia 17: Tá tranquilo, Tá favorável…

…ou O dia que descobri a existência da Tromba D’água

Domingo de folga!!! Dormir até tarde? … Claro que não!
Levantamos cedinho, tomamos um farto café da manhã do hotel com todos à mesa ( coisa rara até então) e partimos de Aparecida até Taubaté para comparecer ao convite do Jongo Crioulo.
Como já tínhamos visitado eles na terça-feira, nos receberam calorosamente e já convidando para jongar.
Entre pontos velhos e novos, conhecidos e reconhecidos, a nossa timidez foi sumindo e deixando espaço para a brincadeira. E lá estávamos nós, jongando, cantando e aprendendo mais sobre o jongo às dez horas da manhã no nosso desejado dia de folga.
O mais legal é que o jongo crioulo se mobilizou para fazer essa roda na casa das Figureiras, em comemoração ao dia da mulher. Um espaço cultural muito legal, com artistas plásticas que trabalham com argila. Dessa forma, demos uma força ( e de alguma, reconhecemos o valor) comprando algumas lembranças feita por essas artesãs.
Após o término do jongo, Marcelo e Elder, que conhecemos no jongo, propuseram-se a nos levar a uma cachoeira ainda em Taubaté. (Obrigada, gente!)
Demoramos aproximadamente 40 minutos para chegar até ela. O tempo demorado se transformou em belas paisagens bucólicas acompanhadas do devaneio de pensamentos (ao menos para mim).

Entre nuvens carregadas que desenhavam no céu na “contra luz” do sol e as orquídeas brancas que floreavam as margens do rio, chegamos animados e de olhos brilhando a trilha da felicidade!
Em 20 minutos, estávamos admirados pela beleza da queda d’água.
E foi assim…

DSC09775
Presto depois de levar um belo tombo.

DSC09807

 

DSC09786
Rafael sentindo a natureza.

cachu1
Fotos: André Sun

Todos descansados, relaxados e profundamente calmos, pegamos a trilha de volta.
Ao chegar até os carros, alguém comentou sobre o fenômeno da tromba d’água (Também conhecido como cabeça d’água), característico de cachoeiras e rios.
Como uma boa curiosa, fui pesquisar sobre. Trata-se de uma ação da natureza em que as águas da chuva descem o rio de uma maneira muito rápida e destrutiva.

E, acabei gastando horas com vídeos assustadores! Tentando descobrir como se prevenir e como identificar o tal do fenômeno assassino. Isso me rendeu grandes pesadelos malucos com trombas d’água, além de muitas risadas com meu desespero em alertar amigos e familiares.
Portanto, caro leitor, se você gosta de ambientes de natureza com água, fique atento com o surgimento de galhos e folhas e água barrosa.
E, nesse caso, corra o mais rápido que puder em direção as margens altas!!!

Fica meu conselho e meu salve!

Bruna Recchia

Dia 14: Cachoeira Paulista

Apresentação legal. Ameaçou chuva, fomos para debaixo de um palco coberto, no meio da praça. Pouco público, mas bem participativo. Alguns moradores de rua. Um sentado bem ao lado da roda, que tocava uma gaita sempre que tocávamos alguma música. Outro em pé, de fora do palco, comentando sempre. O da gaita, que era um tipo quieto e estava prestando bastante atenção, ficou irritado com os comentários do outro e acabou indo embora no meio. O outro ficou até o final. O nome dele é Pedro. Fomos conversando enquanto desmontávamos o cenário. Fiquei surpreso com o conhecimento que ele tinha sobre filmes. Comentou que o Ikier parecia o Logan (Wolverine). Comentou que os X-Men antigos eram melhores, os de agora ele não gostava. Perguntei como é que ele assistia esses filmes, uma vez que mora na rua. Ele respondeu de maneira inconclusiva. Não entendi direito como. Mas deixou claro que não era só por morar na rua que ele ia ficar sem ver filmes. Ofereci um açaí, ele negou. Pelo que tenho visto, problema bem recorrente entre os moradores de rua: não podem com açúcar. Talvez diabetes, pelo consumo de álcool. Falou que não fumava nem cheirava, curtia mesmo era beber. Me disse que estava naquela praça tinha seis meses. Parou de rodar pelo problema de saúde, que afetava as pernas, já inchadas. Foi esse mesmo problema que me fez apertar sua mão de maneira muito delicada – estava também inchada e necessitada de cuidados. Enfim, com um aperto delicado, nos despedimos. E ele disse “É. Vocês vão embora e eu fico aqui… é sempre assim.”

Crô

DSC01411 45 33 31 23 16 5 1

Fotos: MaFê Moreira

Dia 13: Um novo ator pra companhia

b
Na cidade de Aparecida, a do famoso Santuário Nacional, onde descansa a padroeira do Brasil, fomos descarregar nosso cenário numa quarta-feira quente, para dar início a mais um dia de apresentação.

Da Dutra se vê o suntuoso santuário, opulento, entre as dezenas de hotéis, restaurantes, outdoors. A cidade toda segue este tom, quase desesperado, de quem vive do turismo. Nota-se que aquele sentimento de pertencimento, que tanto agrega a uma comunidade, cede ao desejo do mercado, deixando nos atores a sensação de um lugar até bastante hostil.

Na praça, moradores de rua foram os primeiros a nos receber. Festivos à nossa chegada, como costuma acontecer. Era ali a casa deles, e poucas pessoas atravessavam pela praça para se locomover pelo comércio central. Montamos nosso cenário, e a hora da apresentação, algumas escolas chegaram, o que foi muito bem-vindo pois era claro que haveria pouco público passante por ali.

Durante a apresentação, um dos moradores de rua tomou conta da roda. Entrou, dançou, até atuou. O Ricardo Ikier, o Damião, foi levando a situação como pode, improvisando e brincando com o novo companheiro de cena. Estávamos, pois, na casa dele e não podíamos ignorá-lo. Os estudantes se divertiam e, embora a trancos, a história ia seguindo. No entanto, tendo ali muitas escolas, haviam também policiais no local, os quais num dado momento retiraram o morador da roda e o fizeram sentar perto deles. Rolou aquela tensão entre os atores. O Damião foi tentar aliviar a situação, abandonou os outros atores que foram seguindo com a peça, e chegou perto dos policiais, sentou com o moço e ficou trocando ideia, a maneira de dizer que estava tudo bem.

Foi, apresentamos, os alunos adoraram, os professores nos cumprimentaram, voltaram todos a seus ônibus e seguiram de volta às escolas. Depois vieram nos cumprimentar os moradores de rua. Aquele que participou era só alegria. A felicidade imensa de ter participado. Um pouco depois chegou uma mulher, também moradora de rua, emocionada. Alguém notou a postura de bailarina. Contou algo que não entendi bem, mas do que resumo que ela também já tinha sido artista. Agradeceu e foi embora.

A gente apresenta em parques, em escolas, em praças de todo tipo. Mas nessas praças assim, centrais, é muito comum conhecermos seus moradores, os donos da casa. O grupo chega muitas horas antes, e vai-se algumas horas depois da apresentação. Ficamos assim umas 6, 7 horas numa praça. Já perdi a conta de quantas pessoas conhecemos em situação de rua, que acho é o termo mais aceito pra se falar daqueles cujos lares não são uma propriedade privada, como a minha ou a sua. E é sempre uma coisa muito louca, pois eles se aproximam muito facilmente de nós, com vontade de conversar, uns mais doidinhos, outros também artistas, uns observadores, outros tantos de tantos jeitos quanto é possível caber nesta nossa louca sociedade. Se é que cabem. Este é um público comum nas nossas andanças. Nem sempre eles ficam pra ver a peça. Muitos preferem os momentos em que ficam a sós conosco, quando conversamos enquanto montamos o cenário, ou nos maquiamos, ou afinados um instrumento. Nem sei dizer o quanto estes momentos são importantes pra mim. Faz parte do guarnecer do teatro de rua. Faz com que eu entenda de novo porque a rua.

Lara Prado

d a c

Fotos: MaFê Moreira

Dia 12: Mais um jongo – o Crioulo

DSC08640

O Jongo Crioulo de Taubaté é um grupo como o nosso, formado por pessoas com vontade de estudar, conhecer e praticar um brinquedo brasileiro, neste caso, o jongo. Instruídos pelo tradicional Jongo do Tamandaré, de Guaratinguetá, o grupo se reúne a cerca de um ano para jongar e cultivar a prática na cidade de Taubaté.

Neste encontro, aprendemos um pouco do toque do tambu, embora ninguém se arriscasse a tocar na hora da brincadeira. Ouvimos novos pontos e cantamos alguns já conhecidos, e dançamos dessa vez ao modo do jongo paulista.

Como outras manifestações da nossa cultura, o jongo tem diversas camadas, e em poucos contatos só podemos ver algumas delas. O que não tira o brilho desses encontros e só faz reforçar nosso desejo de aprofundar os laços que fizemos até agora.

A chegada nesses grupos é sempre um mistério, pois, apesar de termos entrado em contato antes, não sabemos bem como nossa presença vai interferir no andamento dos encontros. Para além das primeiras incertezas, temos sido muito bem recebidos por todos os grupos, cada um a seu modo, o que por si só já é um aprendizado enorme. Nada tem me tocado tanto quanto a generosidade destes grupos em receber-nos, e, do mesmo modo que temos muita vontade e interesse em conhecê-los, também eles tem demonstrado curiosidade e gratidão por este grupo de teatro que vai visitá-los. Com simplicidade do óbvio disse o mestre Laudeni (Jongo Mistura da Raça) que o nosso interesse valoriza o acontecimento; e disso entendemos bem, pois para nós é o público que valida o teatro.

Muito temos aprendido nesses encontros, e pra além da experiência tão valiosa, vários pensamentos se encucaram em cada um de nós. A gente conversa e discute, mas sabemos que muita coisa só vai ser deglutida com o tempo. Com certeza voltaremos dessa viagem com bagagens extras de incertezas, somadas àquelas de aprendizado. Pois bem. Pois é assim que é, e que bom, não é?

Lara Prado

DSC08654 5 DSC08681 DSC08738

Fotos: André Sun

Dias 8 e 11: Pindamonhangabas

6Na segunda cidade que nos hospedou durante essas presepadas no Vale do Paraíba, duas apresentações, uma no Centro comunitário Araretama e a outra no Bosque da Princesa. Dois lugares em pontos distantes do mapa de Pinda que não há como evitar traçar uma distinção que nos foi apresentada e organizada pela secretaria de cultura da cidade.

A Damião e Cia. de Teatro é um grupo de teatro de rua. Acreditamos que a experienciação poética e coletiva em local público constitui um importante agente de transformação sociocultural, ao criar rupturas no cotidiano – respiros poéticos em meio ao caos dos problemas diários. Assim, procuramos nos apresentar em diferentes lugares das cidades que percorremos, abrindo possibilidades de levar nossos espetáculos para um público distinto, do centro e da periferia, de novos e velhos, que possuem acesso a eventos culturais e também a população carente desses eventos. Esse projeto foi escrito e pensado para assim ser desenvolvido, interligando uma região que possui inúmeros grupos de Jongo, Maracatu, Folia de reis, Congadas e tantas outras manifestações vinculadas à cutura popular brasileira, mas que não é um corredor cultural de grupos de dança, teatro, música que são contemplados com editais de cultura. Devido a esse quadro as apresentações foram sendo agendadas pra ocorrer em pontos distintos das cidades, em escolas da periferia e gerando também o contato com esses grupos da região.

1Já nos primeiros dias de Vale fomos “alertados” sobre a apresentação de Pindamonhangaba, que poderia ser “tensa” já que estava em uma região violenta da cidade, onde existem muitos presídios, e pra ficarmos ligados. Frases que para mim se juntam em uma série de ecos de preconceito e exclusão. A própria pessoa que nos direcionou esses “conselhos” no dia da apresentação no Centro Comunitário Araretama chegando ao local me disse: “Taí uma região que eu não conhecia. Nunca tinha vindo ao bairro” reforçando uma visão apressada e carregada de interpretações rasas sobre o bairro. Pena que essa idéia do lugar onde nos apresentamos tenha atingido também quem planejou a apresentação no local. “o pessoal do bairro não tá acostumado. Não vamos esperar muita gente.” E assim montamos nosso cenário e esperamos o horário marcado pra começarmos. Bem perto do horário percebemos que o publico seria realmente escasso (talvez nenhum). Alguns de nossos atores decidiram subir em nossa carreta, maquiados e com os instrumentos, fazendo um cortejo, chamando as pessoas que estavam pelo bairro. Em alguns minutos dessa ação voltaram sozinhos. Continuamos tocando na esquina, quando algumas pessoas foram chegando devagar, alguns meninos do bairro apareceram com suas bicicletas e fizemos a apresentação para um público arredio e que pelo comportamento nos mostrou que não tinham aquele costume de assistir apresentações de teatro, mas que de alguma forma gostaram daquela experiência. Nos cumprimentaram no final ressaltando “bom trabalho. Continuem fazendo ele”, me falou um dos que saiam meio atordoado ainda pela presepada que tinha visto.

Já a apresentação do “Bosque da Princesa” foi bem diferente. Apesar da chuva que já se apresentava horas antes da 2apresentação montamos o espetáculo abrigados pelo coreto do bosque, um lugar muito bonito e arborizado junto ao rio Paraíba do sul que passa pelo local. Pouco antes de bater duas horas (uma hora antes do horário marcado para apresentação) a chuva cessou e armamos a apresentação no lugar onde mais cedo já havia se apresentado um grupo que fez cirandas com as crianças e adultos do lugar. Fomos informados que o público dali chega em cima da hora das apresentações, que são constantes no bosque. E assim foi. Quase na hora de começarmos surgiu um grande grupo de pessoas de diferentes idades e que demostravam que conheciam o lugar, e tudo o que envolve essas apresentações. Já escolheram o lugar pra se sentar e esperaram o início da peça. Foi uma ótima apresentação. O improviso que tem um papel fundamental na companhia se deu com maestria e rolou solto e certeiro com o público generoso, atento e que se fez presente em grande número.

4Não posso deixar passar essa diferença nas apresentações e locais que a meu ver não foi nada casual. O prévio conhecimento do horário do espetáculo, de toda aura que envolve uma peça, o lugar preparado para receber tanto a companhia como o público, as árvores que nos deram uma sombra excelente para trabalhar, difere em muito do local anterior um galpão, quente, distante e sem nenhum tratamento para tal tipo de experiência. O publico que ficou sabendo por nós em cima da hora de que ali iria ocorrer uma peça de teatro, o desconforto até nos corpos que nos assistiam gritava que era uma situação nova que os moradores do Araretama presenciaram. Apesar de não ter sido uma apresentação tão boa como a do bosque, ocorreu bem, sim obrigado. Agora os esforços para que essa representação ocorresse em ambos os lugares me parecem bem distintas. Não pelos atores que se doaram de forma completa, mas talvez (quem sabe?) pela idéia que sobrevoa o bairro periférico e que com certeza não recebe semanalmente uma carga de apresentações nem de perto igualitária ao bosque (no dia em que estivemos ali três grupos passaram pelo solo onde a princesa Isabel já caminhou). Será que a divulgação foi feita de forma igualitária? Com certeza não. Os esforços do grupo foram. Mas o preconcebido de que o bairro não comparece aos eventos, não está acostumado ao teatro e outras tantas visões que só fortalece a distância geográfica e social dos dois pontos, parece ter assombrado quem organizou localmente a produção em Pinda. Me orgulho de pertencer a um grupo que continua trabalhando para minimizar essa diferença, levando seu trabalho para locais diversos, pessoas diferentes mas, que ainda nesse ano de 2016 ainda tem que romper barreiras invisíveis e tão simbólicas que separam a periferia do Bosque da Princesa. Que caiam os muros.

5

Ricardo Ikier

Fotos: MaFê Moreira

Dia 1: A estreia no Vale

DSC06754 (1280x853)
Foto: Taiana Avritchir

A nossa viagem estreou 6 horas depois do planejado, como todos já suspeitavam em segredo.  Partimos felizes à meia-noite. Na mala, um kit-emergências: esparadrapos, alfinetes e cola quente. E é claro, nosso mais novo projeto-orgulho-todo-bordado-em-cetim: o estandarte da companhia.

De começo, a carreta bufônica ameçou vôo na estrada – mais uma horinha de atraso. Mas enfim chegamos, e um pouco menos felizes, capotamos cada um no seu quadrado.

DSC06771 (1280x720)
Foto: André Sun

Eis que na tarde de quinta a companhia desembarca na bonita praça de Caçapava. No caminho, ruas de paralelepípedos, e os atores se sentindo na cidade onde seus vizinhos sabem seu nome e comem juntos bolo de fubá. A praça confirma ao menos parte dessa ideia. Assim que chegamos, uma senhora pergunta: Quem vai ser o Damião? Ouvira na rádio. E muitas outras pessoas aproximam, e puxam conversa. Ganhamos sorvete. Os policiais desejam merda. E estreamos, entre a fonte e o coreto, em Caçapava, a primeira das 11 cidades por onde vai viajar a companhia.

DSC06784 (1280x720)
Foto: André Sun
DSC06801 (1280x603)
Foto: André Sun

 

 

 

 

DSC06896 (1280x719)
Foto: MaFê Moreira
12719659_454790551376786_2718273327941551023_o
Foto: André Sun

A apresentação corre bem, e o grupo finaliza feliz seu primeiro trabalho. Como de costume, conversamos ainda com o público ao fim do espetáculo, tirando fotos e vendo aos poucos a praça ficar vazia. Só então alguém olha pro céu e nos desperta: vai cair um temporal. Começa a correria. Desparafusa, desamarra, dobra, guarda. Mas a chuva começa, e corremos ainda mais. Em dado momento, eu só vejo o Cro (Rodrigo Nasser) correndo de sunga pela praça com duas alfaias na mão. Chegamos no hotel, molhados e cansados, e este nem é o momento mais louco do dia. Ainda nem sabemos, mas iríamos finalizar a noite invadindo um coquetel de recepção dos mamutes. Enfim.

Ainda temos muito trabalho pela frente, e, com certeza, muitas loucuras pra enfrentar. Por último vou deixar aquele apelo, pois acabamos de pôr no ar uma campanha de financiamento coletivo e vamos precisar muito da divulgação dos amigos. Amigos, chegou a vossa hora! Esse é o link da campanha: https://benfeitoria.com/umacarretaparadamiao

Acompanhem nossas presepadas!

Beijos! 🙂

Lara Continue lendo “Dia 1: A estreia no Vale”

Damião vai pro Vale!

A Damião e Cia de Teatro está se preparando para pegar estrada!

 

O projeto “Presepadas entre serras e vales”, aprovado no edital Circulação de Artes Cênicas para Rua do ProAC, levará a companhia para 11 cidades do Vale do Paraíba. Por aqui vocês poderão acompanhar todas as novidades dessa viagem!

No bom e velho diário de bordo a la século XXI!

Aguardem!

24.09 - AS PRESEPADAS DE DAMI_O (2)